Para celebrar a cultura audiovisual
Daniel Toledo
Criado em 2020, em meio ao período de isolamento social, o Festival Audiovisual de Cultura (FAC) chega à sua 5ª edição experimentando, mais uma vez, a potência de um festival – presencial e virtual – que articula criadoras e criadores vinculados a diferentes campos do nosso amplo cenário cultural.
Selecionados por meio de uma convocatória realizada entre novembro e dezembro de 2024, os 40 trabalhos – com até 5 minutos de duração – que integram a quinta edição do FAC oferecem um generoso apanhado de narrativas, paisagens, ritmos, sonoridades, corpos, estéticas, linguagens e imaginários que renovam e ampliam, cada um ao seu modo, o que podemos entender como cultura audiovisual.
Para além de formatos tradicionais, como curtas-metragens documentais e de ficção, também recebemos videoclipes, videopoemas, videodanças, ensaios, reportagens e dezenas de vídeos que colocam em diálogo elementos vinculados a distintas linguagens artísticas e universos culturais. Como de costume, reconhecemos também a potência dos vídeos de animação, incorporando ao conjunto técnicas expressivas como o desenho, a pintura, a instalação e a arte digital, e incluindo, intencionalmente, obras produzidas com e para públicos de todas as idades.
Desejamos um bom festival!
Relações, corpos e espaços em transformação
Após uma edição com abrangência nacional, o FAC retorna nesta edição ao território de Minas Gerais, trazendo produções de Araxá, Belo Horizonte, Camanducaia, Carrancas, Fama, Itabirito, Januária, Juiz de Fora, Lagoa Santa, Montes Claros, Pedro Leopoldo, São João Del Rei, Serro, Tiradentes, Uberlândia e Viçosa. Além da seleção e da veiculação dos trabalhos, voltamos a propor a organização das obras em algumas trilhas curatoriais, por meio das quais buscamos estabelecer diálogos e contrastes entre os trabalhos, colocando lado a lado variadas lidas com a cultura e as possibilidades do audiovisual.
Em meio às obras selecionadas, chamam atenção muitas reflexões sobre memória, ancestralidade e tradição, perpassando experiências individuais e coletivas, assim como rituais que se perpetuam em diferentes esferas da vida. Em outros trabalhos, figuras reais e míticas nos conduzem a paisagens naturais, rurais e urbanas, assim como a ambientes íntimos e públicos permeados por encontros, despedidas e situações transformadoras. Também integram a seleção obras que refletem sobre maternidade e paternidade, que contribuem para a renovação e expansão das nossas noções de gênero, que retratam relações estabelecidas à distância como um possível antídoto ao isolamento que ainda existe como trauma. Arte, libido e contato humano se apresentam como estímulos à vida – a relações, corpos e espaços que estão sempre em transformação.
Dentro da mostra também há espaço para críticas à desvalorização do patrimônio cultural e da cultura popular, à desigualdade das grandes cidades – com seus centros e margens – e ao temido transtorno climático que agora se converte em realidade; para experimentos audiovisuais sobre a hierarquização de corpos, a ocupação artística das cidades, a experiência concreta da bioconstrução e o valor subjetivo da memória.
O humor se faz presente nos quadros de uma ceia sagrada de refrigerantes, assim como nos atribulados arredores de uma festa de casamento com ares de chanchada. Ainda somos convidados a visitar a cultura surda em um suposto futuro pós-Libras, e a reconhecermos, em nossas próprias entranhas, uma insaciável fome de recursos e equipamentos eletrônicos.
Pela primeira vez, trazemos uma trilha dedicada a públicos de todas as idades. Em Tardes, noites, terreiros e quintais, um mico nos guia em meio a um parque urbano, e acompanhamos – sob a perspectiva de um galo, um menino e um pequi – os preparativos de uma grande festa popular. Em diálogo com a linguagem documental, acompanhamos adultos e crianças que se envolvem em oficinas de desenho, enquanto outros se dedicam à construção e à instalação do tradicional Pau de Sebo. Nessa mesma trilha, em uma sala de ensaio, brincantes experimentam passos da Folia de Reis e pinceladas invadem a tela em uma narrativa musical sobre os medos e mistérios que habitam o imaginário das florestas.